quarta-feira, 20 de outubro de 2010

La vie en France

Durante o período que vivemos na França sempre nos reuníamos em um PUB. “La vie en France”. Era um PUB para gringos, víamos sempre gente de todo os lugares. Mochileiros como nós. A maioria nem conseguia falar Francês. Nós nos sentávamos em uma mesa de canto, as luzes baixas deixavam tudo com um ar sombrio. Além disso havia a fumaça de dezenas de cigarros. O ar era literalmente tóxico. Era uma vida bem Junkie, mas eu  gostava. Boas conversas, Whisky vagabundo e garotas fantásticas. O Lugar ficava infestado com a risada de todas aquelas mulheres. Lindas e perigosas. Elas costumavam deixar a gente apaixonado e depois desapareciam no ar, feito fumaça. Eu nunca me deixei iludir por essa felicidade etérea, mas ria dos meus amigos tentando encontrá-las por noites a fio. Os mais antigos já haviam se acostumado e não se deixavam enganar, mas os novatos sempre caiam nas trapaças da noite. Bebiam até vomitar, perdiam no carteado e se apaixonavam. Era uma boa vida. Realmente, uma vida magnífica. Até que apareceu Louise. Me pergunto de onde ela saiu. Não me lembro de nada. Ela simplesmente se juntou a nossa mesa com algumas pessoas e começou a conversar. Depois descobrimos que ninguém a conhecia e que, na semana anterior, ela tinha estado no PUB e havia se apresentado como Marie. Mas antes de contar o que houve devo descrever Louise…ou Marie. Ela merece uma descrição, porque ela fugia dos padrões. Era maravilhosa. Na noite que a vimos ela usava uma boina à la mode Française. A camiseta tinha um decote redondo e listras horizontais vermelhas e brancas, devo dizer que em conjunto com os seios fartos dela a peça ficava maravilhosa. Usava uma saia preta de cintura alta que marcava perfeitamente a delicada cintura e deixava sultimente a mostra a barriga da garota, que não chegava a ser  gorda, mas tinha uma pequena barriga, como a das mulheres de antigamente. Este aspecto em especial lhe deixava mais perto da realidade, no entanto mais remota. Como se ela não pertencesse aquela época. A saia, justíssima, marcava suas coxas grossas, mas não tão grossas. Seu quadril era grande em contraste com a cintura fina. Rebolava sem pudor fazendo com que todos os olhos fossem  desviados pra ela. Por baixo da saia usava uma meia rendada a lhe cobrir as longas pernas e as vezes, conforme andava, podia-se ver um pedaço de  sua cinta-liga. Nos pés um sapato de salto que lhe deixava ainda mais alta do que já era, o sapato de um vermelho  quase tão sangrento quanto o batom de seus lábios. A maquiagem, leve, deixava que vissêmos seu rosto com clareza; os olhos arredondados e grandes, levemente puxados nos cantos, a boca pequena e bem desenhada e a pele alvíssima. Assim que chegou, Louise monopolizou a conversa, assim como todos os olhares. Ria-se das brincadeiras e das cantadas. Um riso malicioso. Olhava-nos debaixo, um olhar devastador, daqueles que as mulheres (não as garotas, as mulheres mesmo, com M maiúsculo) costumam lançar aos seus amantes. Nos devorava. Louise, devo dizer mais uma vez, era magnífica. Inteligente, parecia que conhecia qualquer tipo de assunto. Dava longas goladas em seu copo de Whisky, em seguida tragava o cigarro e dizia “As mulheres comportadas sabem beber”, então ela sorria, ela sorria daquele jeito sacana, rindo de si mesma. Ficamos sentados em torno dela durante horas, conversando e rindo. No dia seguinte, todos estávamos tristes, Louise certamente não voltaria a aparecer. Esse era o mal das mulheres francesas, elas roubavam nosso coração e iam embora. Mas, ao contrário do que suspeitávamos, ela estava lá na noite seguinte e nas outras que viriam. “Eu gosto de vocês, rapazes. São gentis”. Ela nos chamava de rapazes pois era mais velha que todos nós. Não muito,mas o suficiente. E assim foram aqueles meses ao lado de Louise. Sua beleza nunca acabava,ao contrário, ela ficava a cada dia mais, com o perdão da palavra, deliciosa. Era incrível a mágica que exrecia sobre nós. Mas um dia, ela parou de aparecer. No ínicio não ligamos, era a primeira vez que ela faltava, certamente tivera algum problema. E assim se passaram três semanas até que ela retornasse, encantadora como sempre, mas um pouco abatida. “O que houve?”.”Ora,rapazes. Não vamos falar disso. Achei que estávamos aqui pra nos divertir. Do contrário não teria vindo. “. E riu. E rimos com ela. Passou-se mais duas semanas e nós tínhamos que ir embora do país, fomos expulsos do lugar onde estávamos vivendo durante aqueles meses e os policiais estavam atrás de nós. Resolvi me declarar. Dizer que amava Louise. Seria aquela noite, eu a levaria comigo. Quando chegou a hora eu gaguejei muito, mas disse. Fui homem, fui em frente. “Achei que eu teria que te agarrar antes que tomasse a iniciativa”. Ela era mesmo fantástica. Passamos a noite juntos, dormimos juntos. E eu acordei com ela do meu lado. A pele branca, nua, embrulhada apenas nos lençois. O perfume adocicado por todo o lugar. Não era um sonho. Louise ia fazer as malas, ia embora comigo. O navio partiria dali a quatro dias e nós nos encontraríamos no “La vie en France”. “Louise”.”Sim?”.“Quando vai me contar seu verdadeiro nome?”. “Só quando eu morrer.” Riu-se daquilo e foi embora.Fiquei lá, sozinho com seu perfume, em êxtase. Eu a amava, com todas as minhas forças. Ah, a vida na França! Esperei toda a noite. Louise não apareceu. Meus amigos foram embora. Esperei três meses. Louise não apareceu. Resolvi tentar encontrá-la. Não achei. Ela havia sumido, como as outras. Como as belas mulheres francesas. Chorei durante uma semana, depois dormi, dormi por tanto tempo que nem me dei conta dos dias. Enquanto andava desolado pelas ruas francesas, segurando minha mala e tentando encontrar um lugar para passar a noite, ele chegou. Um garoto, com uma carta na mão. “Você é o amigo da Senhorita Louise?”.”Sim, por quê?”.”Ela me pediu que lhe entregasse isto, demorei um pouco, pois não me deixaram entrar no lugar onde ela disse que estaria”. Sorriu. Deu-me a carta e se foi. Eu nunca vivi um momento tão doloroso quanto aquele. Louise me contou pela carta toda sua vida, disse que estava doente e não poderia me encontrar. Ela estava morrendo. Não transcrevo a carta pois acho que o que está ali deve ficar somente entre eu e ela. Mas transcrevo o final, para que entendam o que aconteceu. “Deixarei esta carta aos cuidados de um garoto, se eu não puder lhe encontrar ele entregará ela a você. Se recebê-la você saberá que não vamos viajar juntos. Mas saberá que isso é o que eu mais queria. Eu te amo. E meu nome é Alice”.

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